João da Silva
Minha HistóriaA Biblioterapia cruzou meu caminho de forma inesperada e arrebatadora. Tarde da vida, busquei formação em Psicologia. Na época, atuava como coordenadora de treinamento e desenvolvimento de fábrica da área de Petróleo e a graduação permitiria ampliar o campo de atuação profissional na empresa. No passado, trilhei caminhos pela Faculdade de Letras e Administração, que não segui pelos reveses da vida. Jamais imaginei atuar como psicóloga clínica ou sequer incorporar a literatura em meu trabalho. Para me formar, tive que passar pelo estágio clínico. Nessa experiência, descobri que cada um é baú de histórias. Um caso, em especial, provocou uma reviravolta no meu rumo: uma paciente de 44 anos iniciou acompanhamento psicológico, em março de 2010. Sua queixa era a presença de insônia, calafrios, palpitações, pressão alta, falta de ar. Já tinha consultado clínico geral, que descartou questões de origem fisiológica e recomendou serviço de psicologia.
No primeiro encontro estava angustiada e falou sobre a morte do marido, que se deu durante uma relação sexual com ela. Possuía dois filhos adolescentes, que estavam agressivos na relação. No decorrer dos encontros, foi observado que o luto era uma questão central e que não fora trabalhado. A paciente passava a maior parte do tempo isolada em seu quarto, nutrindo um forte sentimento de culpa. Lembrei-me do livro Mas por quê??! A história de Elvis, de Peter Schössow, que trata o tema do luto de forma sensível. Eu o trouxe na semana seguinte e pedi a ela que o levasse, lesse e que deixasse em local visível para despertar a curiosidade dos filhos. No encontro seguinte, ela contou que todos o leram e, motivados pelo seu conteúdo, iniciaram a relembrar histórias, a buscar fotografias, a falar do pai. Isto gerou oportunidade da família expressar a dor, a saudade e as memórias do pai. Uma semana após, a paciente suspendeu a terapia por sentir-se aliviada e apta para iniciar nova fase. Meus supervisores ficaram surpresos e não acreditaram que um livro pudesse ter efeito catalizador num processo terapêutico. Essa experiência foi fundante. Deu-me a dimensão do potencial terapêutico da literatura, iluminou meu propósito de vida. Passei a olhar os livros como se os visse pela primeira vez. Passei a reler, a marcar trechos e a alimentar o acervo que chamo de farmacinha. Sou forjada pela experiências e aprofundamentos em fontes e estudos na área de forma autodidata. Essa história foi tomando tamanha proporção, que me impeliu a abandonar emprego fixo, com salário e benefícios, para dedicar-me integralmente à biblioterapia. Isto aconteceu em 2011. Sou profundamente grata pela riqueza de experiências atravessadas e tenho a convicção que aprenderei até o último suspiro. E essa história está só começando. Que bom que você chegou para fazer parte dessa grande bibliofamília!